Passarinho Não é Pet

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Carol traz algumas informações sobre o lugar de aves silvestres que não é dentro de uma gaiola.

Meu finado avô materno amava passarinhos.

E queria, a todo custo, transferir a maneira dele de amá-los para mim.

Quando criança, ele me presenteava com canários na gaiola. Morria um, ele me dava outro. E assim foi até o dia em que ele partiu.

Eu tinha uma leve consciência de que era errado, mas não tinha substrato para debater – tampouco coragem para recusar o presente que, na convicção dele, era um ser vivo amado e bem cuidado. Como se tivéssemos o direito de decidir que ficar preso é o melhor para quem nasceu para voar. Mas não tínhamos. Não temos. E nunca vamos ter.

@cachorracarol

Passarinho Não é Pet

Em fevereiro deste ano, em uma decisão histórica, a Índia proibiu o encarceramento de pássaros em gaiolas. Manmohan Singh, juiz responsável pela proibição, defendeu:

“Tenho claro em minha mente que todos os pássaros têm os direitos fundamentais de voar nos céus e que os seres humanos não têm o direito de mantê-los presos em gaiolas para satisfazer os seus propósitos egoístas ou o que quer que seja. Eles merecem compaixão. Pássaros têm direitos fundamentais que incluem o direito de viver com dignidade e não podem ser submetidos à crueldade por ninguém.”

Diferente da época do meu avô, hoje, já temos acesso à informação e a recursos suficientes para transformar um hábito egoísta em uma nova consciência.

Um projeto em Treviso, no Sul de Santa Catarina, por exemplo, transforma gaiolas apreendidas durante as operações da Polícia Ambiental local contra a caça ilegal de aves em objetos de decoração. Depois de customizadas, as gaiolas são doadas para o comércio da região, a fim de conscientizar a população contra o encarceramento e a favor da preservação dos pássaros na natureza.

“A proposta é ampliar ainda mais a consciência para as pessoas entenderem que o lugar de aves silvestres não é dentro de uma gaiola”, explicou um dos envolvidos no projeto.

Claro que meu avô, assim como tantas outras pessoas que conheci que mantinham o mesmo hábito de criar passarinhos como animais de estimação, não entendiam que o que acreditavam ser cuidado era, na verdade, crueldade.

No entanto, agora, já temos meios para compreender e disseminar que a liberdade é óbvia.

E que a maneira mais completa de amarmos alguém é deixá-lo ser quem é.

Veja outros textos de Carol aqui.

Carol Zerbato

Escrito por Carol Zerbato

Publicitária e ativista pelos direitos dos animais, Carol Zerbato já trabalhou com televisão e comunicação corporativa; foi locutora e repórter; e atuou como redatora e revisora. É criadora da Cachorra Carol - histórias em quadrinhos que retratam as relações humanos através do olhar de uma vira-lata, a fim de conscientizar a sociedade sobre a causa animal - e mãe de três filhos: Rachel, a mais velha, uma labralata; Deloris, a do meio, uma gata vira-lata adotada já adulta; e Ben, o caçula, um humano.

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  1. Olha, generalizar é complicado. Espécies silvestre nasceram para viver na natureza, mas domésticas, como periquitos, calopsitas, galinhas, etc, foram selecionadas por anos em suas caracteristicas fisicas e comportamentais de forma que muitas vezes dependem do cativeiro. populações silvestres de periquitos e calopsitas são praticamente inexistentes. um periquito na coloração azul ou branca não se camuflaria tao bem como seus ancestrais selvagens na vegetação, assim como não saberia procurar comida. eles se diferem tanto uns dos outros como cães e lobos. dessa forma, esses animais devem ser cuidados com amor por nós, não abandonados. terem um espaço grande para se movimentar, brinquedos e companheiros. é isso que podemos fazer por eles: oferecer-lhes cuidado e amor. um dia uma calopsita caiu em meu prédio. exausta, sedenta, sem nada no papo e com sintomas de insolação, com comportamentos estranhos de origem claramente neurologica. tentei salvá-la mas acabou morrendo. soltar uma ave domestica equivale a abandonar um cão ou gato. é uma sentença de morte ou de, no mínimo, uma vida difícil. além disso, representa riscos para a fauna local. Algumas pessoas acham que, ao soltar passarinhos “de gaiola”, estão fazendo uma coisa muito boa, mas esses animais sofrem muito e acabam morrendo de inanição ou hipotermia. Cães e gatos também representam grande risco ao serem soltos em áreas naturais (e mesmo em qualquer área!!!) pois são predadores eficientes da fauna nativa. Todos esses animais (o galo da foto também) podem, potencialmente, portar patógenos fatais para a fauna nativa.

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