Porque Não Punir Seu Cachorro

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As vezes a gente acha que a única maneira deles aprenderem é punindo, mas essa não é a única alternativa!

Você já puniu seu cachorro? Você pode até achar estranha essa pergunta, mas a punição nem sempre está relacionada apenas à violência física, ela pode ser muito mais abrangente do que isso.

Saiba porque não punir seu peludinho:

Então, o que é punição?

A punição é uma consequência que ocorre logo após um comportamento e que resulta na diminuição deste, ou seja, ela se destina a eliminar comportamentos indesejados. Ela faz parte do chamado controle aversivo do comportamento, que seria buscar modificar um comportamento através de consequências aversivas: uma pessoa (sim, é dessa forma conosco também) ou um cão se comporta para que algo não aconteça.

No artigo anterior (Como os cães aprendem), vimos que os cães aprendem por associação, ou seja, são as consequências dos comportamentos que definirão se eles serão repetidos ou não. Podemos então afirmar que as consequências do comportamento o controlam. Quando uma consequência aumenta a frequência de um comportamento, ela agiu como um reforço e se essa consequência diminui um comportamento, então ela agiu como uma punição.

De acordo com Moreira & Medeiros (2007) há dois tipos de punição: as positivas e as negativas, mas isso não quer dizer que algumas são boas e outras ruins e sim se elas foram acrescentadas ou retiradas do ambiente. A punição negativa ocorre quando um estímulo reforçador é retirado do ambiente (por ex: você chega em casa e seu cão pula em você para ter atenção, você o ignora, a retirada da atenção é uma punição negativa). E a punição positiva ocorre quando um aversivo é acrescentado ao ambiente e neste artigo iremos tratar deste tipo de punição.

O que são aversivos?

Aversivo é tudo o que o cão não gosta e que faça ele se sentir desconfortável como, por exemplo, broncas, gritos, fazê-lo sentir medo, sustos (latas de moeda, spray de água), dar um tranco na guia, cutucar, empurrar, usar enforcador ou guia unificada.

Exemplo de uso de aversivo, muitos adestradores recomendam espirrar agua no cachorro para assustá-lo e deixar de fazer o comportamento indesejado, mas isso pode causar traumas como medo de spray de qualquer tipo, como banho a seco ou remédios.
Foto de: @dipperdimamae

Qual o problema com a punição positiva?

Embora pareça ser mais fácil e possa gerar efeitos imediatos, a punição positiva (na qual se acrescenta aversivos ao ambiente) não serve para ensinar um comportamento, serve apenas para tentar resolver problemas, mas o que acontece na verdade é que esses problemas não são resolvidos e a punição pode até mesmo gerar outros problemas, como:

– quebra de confiança e vínculo com os tutores, pois dificulta a comunicação;

– respostas emocionais como ansiedade, insegurança, tremores;

– supressão de outros comportamentos que ocorreram no contexto da punição, por exemplo, um cão que pula nas visitas e é punido pode passar a não pular, mas a também ter medo de visitas;

– aumento de problemas de comportamento como agressividade, comportamentos repetitivos, latidos em excesso etc. Isso é comprovado por estudos como o descrito no artigo “Dog training methods: their use, effectiveness and interaction with behaviour and welfare” (2004) em que 364 tutores de cães participaram de questionários e o maior número de comportamentos problemáticos foi relatado pelos tutores que usaram  apenas a punição ou uma combinação de punição e recompensa, portanto, punir e depois recompensar também não adianta.

– fuga e evitação da interação com quem pune (o cão só não realizará o comportamento indesejado na frente de quem o pune, mas o fará se essa pessoa não estiver por perto);

– medo generalizado do ambiente (alguns adestradores punitivos recomendam utilizar a punição despersonalizada, cuja ideia é punir o cão sem que ele veja quem foi, mas isso pode levar ao medo generalizado do ambiente, pois foi gerado um trauma ali);

– O uso de enforcador ou guias unificadas pode gerar ou potencializar problemas como aumento da pressão intraocular, colapso de traqueia, desordem da tireoide, causar danos cerebrais isquêmicos graves e estrangulamento, de acordo com o relato do artigo “Severe brain damage after punitive training technique with a choque chain colar in a German sheperd dog” (2013) em que, infelizmente, o cão foi punido com o enforcador (erguido do chão) e faleceu.

Um cão de grande porte também pode (e deve) usar peitoral.
Foto de: @bela_chowchow

– Uso de e-collar ou colerias de choque. De acordo com um estudo recente (CHINA, MILLS e COPPER, 2020) os cães que treinaram com o e-collar tiveram o tempo de latência (tempo entre um estímulo e uma resposta) maior do que o grupo de cães treinado com reforço positivo, ou seja, eles demoraram mais para responder ao estímulo dado e, além disso, tiveram um desempenho pior, o que comprova que o uso desse tipo de coleira não é eficiente, além de trazer vários riscos e sofrimento desnecessário.

Além disso, a punição positiva interfere no aprendizado do cão. É comprovado através de pesquisas como a descrita no artigo já citado (HIBY; ROONEY; BRADSAHW, 2004) e no “Training methods and owner-dog interactions: Links with dogs behavior and learning hability” (2011) que a técnica punitiva não se mostrou efetiva para com nenhuma das tarefas/comandos propostos aos cães e que cães que são mais punidos tendem a brincar e interagir menos e a ter um desempenho pior no aprendizado do que cães treinados com recompensas. Além disso, um cão que passa por muitas punições acaba associando que a melhor forma de não ser punido é não oferecer comportamento algum e acaba se tornando apático.

E não menos importante, temos ainda a questão ética. Se você ama seu cão, por que fazê-lo passar por situações desagradáveis e até dolorosas?

Qual a alternativa?

Culturalmente, somos seres reativos no sentido de buscar resolver os problemas apenas depois que eles acontecem. O ideal é buscar ser proativo! Buscar ensinar seu cão o que você quer que ele faça, prevenindo os problemas e sempre de forma positiva, recompensando os comportamentos desejáveis e estabelecendo regras, pois educar de forma positiva não quer dizer que o cão pode fazer o que quiser.

E se eu já puni meu cachorro?

Se você alguma vez já puniu seu cão de alguma dessas formas que citei, assim como eu já fiz, então pare! Claro que em uma situação de perigo, como se o cão estiver roendo um fio elétrico e corre o risco de sofrer uma descarga elétrica, a punição vai fazer com que ele pare o comportamento imediatamente e eu faria isso (uma bronca) para proteger a Joy ou a Pepper, mas isso deve me levar a pensar que eu deveria ter previsto que elas poderiam fazer isso e deveria ter, de alguma forma, evitado que elas tivessem acesso a esse local ou ensinado o que deveriam roer.

Nunca é tarde para tentar melhorar nossa relação com nossos cães e para buscar dar uma melhor qualidade de vida a eles!

Leia mais: Adestramento Básico para Cães

E aí, o que achou dessas dicas? Conta aí nos comentários!

Maíra

Escrito por Maíra

Sou formada em Letras pelas FAAT - Faculdades Atibaia e "quase" adestradora. Mamily da Joy e da Pepper que me deram coragem de buscar fazer o que realmente gosto: trabalhar com animais e ajudar as pessoas a melhorarem seu relacionamento com seus pets através da educação canina.

Comentários

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  1. Muito importante falar sobre isso. Ainda myitos tutores e adestradores acreditam que a punição é o unico meio… Precisamos mostrar mais como outro caminho também é possível.

    • Obrigada, Leslie!! Infelizmente, há muita gente que ainda acredita que punir em melhor mesmo.

  2. Olá!! Sou mamãe de primeira viagem de um cachorrinho (Lulu da Pomerânia) de dois meses. Eu estou me desgastando tanto pois não sei mais o que faço, ele é hiperativo, e não consigo fazer ele entender pelo menos a não me morder, as demais coisinhas de filhote até passa, eu relevo, mas ele quer vir p o colo e ficar mordendo, não para de morder e fica raivoso, rosna!! O que posso fazer, por favor, me dê uma LUZ!!

    • Oi Patrícia! Os filhotes podem fazer isso por alguns motivos: porque foram retirados da ninhada com menos de 60 dias (na ninhada, com a mãe e os irmãos, eles aprendem a não morder forte, pois a principal brincadeira deles ali é morder), porque pode ser divertido para eles, para receber atenção (mesmo que seja você tentando o impedir de morder), por ansiedade (tem muita energia acumulada e precisa gastar) ou para evitar escovação, toque, coleira.
      O que você pode fazer: gastar a energia dele com atividade física (acredito que ele não tenha todas as vacinas ainda, mas você pode brincar com ele em casa com bolinha, cabo de guerra, ensinar alguns comandos – no perfil @joy.2theworld eu ensino alguns, fornecer a alimentação dele em brinquedos de enriquecimento ambiental (bolinhas dispenser de ração, comedouros lentos).
      Agora se você já faz isso, pode fazer o seguinte: não fazer carinho quando ele estiver agitado e nem interagir quando ele estiver mordendo, pelo que você falou ele faz isso por ter muita energia e querer atenção então quando ele te morder você interrompe a brincadeira/interação e direciona essas mordidas para um brinquedo. Ele vai associar que quando ele te morder, a brincadeira para, mas com o brinquedo a brincadeira continua e assim ele aprende que não é para te morder. Disponibilize também brinquedos de roer como mordedores de nylon, logo ele entrará na fase de troca de dentes e também irá morder para coçar a gengiva. Espero ter ajudado!! Se precisar pode entrar em contato comigo por aqui ou através do instagram @joy.2theworld 😉

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